Apresentação
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Alguém apontou a dimensão infantil de alguns dos meus projectos. Esta infantilidade preguiçosa quer apenas ser uma forma de eficácia. Duchamp que gostava mais de respirar que de trabalhar, deu-se conta da escravatura da produção no campo artístico, dos que se sentem obrigados, perante a sociedade, “a pintar um quadro por mês”. Um tipo de Sísifos do pincel que raras vezes saem do que já se sabe que vai sair, dos sucessos confirmados e serigrafados. Fujo como posso de tal, simplificando e agilizando os meios de produção. Em nome de tal simplicidade transformei-me na personagem de pequenas acções documentadas em vídeo.
Como a personagem da vídeo-instalação “as mãos sujas”, que dedicava as suas noites a um estranho saque dos jardins da cidade do Porto. O objectivo era simples: roubar as plantas que os decoram e que, durante o dia acompanham pombos, cansados e namorados, para decorar o seu próprio espaço privado, a sua casa. Encenação patética da guerra perdida do público contra o privado em versão portuguesa.
Outro tipo curioso, de idêntica fixação vegetal, foi aquele que numa tarde de inverno se dedicou a eliminar todas as plantas daninhas nascidas, sem autorização e fora do sítio, na “Praça de Espanha” de Barcelona. Este projecto, acompanhado da tradução da palavra estrangeiro nas então vinte línguas oficiais da União Europeia, está inserido numa série intitulada “Comodidade Europeia”, essa comodidade-fortaleza, que se fecha em muros que vão de Gibraltar às fronteiras polacas.
Neste mesmo registo vivem os projectos executados com a ajuda directa de imigrantes ilegais, ditos sem-papéis, como o campeonato de futebol que ajudei a organizar e que documentei no Estádio Olímpico de Barcelona com um grupo de subsaarianos ameaçados de repatriamento. O objectivo era impedir que tal acontecesse utilizando os meios de comunicação social para dar a conhecer as histórias pessoais daqueles homens. Este objectivo foi parcialmente alcançado.
Outro episódio da mesma história foi a acção organizada no Parlamento Regional de Mérida. Neste caso, um grupo de músicos búlgaros foi contratado para dar um ritmo sincopado ao jogo no qual se vão eliminando cadeiras e jogadores até ao momento, em que os dois últimos concorrentes lutam por uma derradeira cadeira livre. Desta feita, o registo foi feito pelas câmaras de segurança do Parlamento.
Noutro vídeo, é possível observar, graças a uma câmara escondida, como liberto, uma monografia sobre Hans Haacke de um grande armazém de livros de natureza contrária ao carácter libertário daquele artista. Em jeito de homenagem.
Esta seria, portanto, a “criança criminosa” de Jean Genet, a dimensão lúdica dos projectos não lhes garante a inocência que alguns gostam de ver na infância. As acções são amiúde efémeras e sempre rápidas, procurando construir um espaço onde o artístico e o político formem parte de um mesmo mecanismo de produção e circulação. O carácter muitas vezes anónimo da obra, enfatiza a ambiguidade sobre a sua origem.
Paralelamente desenvolvo um trabalho mais caseiro e silencioso e que se insere numa certa tradição de poesia visual. Manipulações de símbolos, ícones publicitários e também de palavras. É o caso de “Passe-Partout” (em francês, chave mestra). O carácter gráfico garante a estas novas imagens uma reprodutibilidade técnica que facilita intervenções públicas em grande escala (autocolantes, desenhos a giz, cartazes, etc…)
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Texto publicado em
“Propostas da Arte Portuguesa. Posição: 2007″ >>>
Livro editado por Miguel von Hafe Pérez,
volume IX da Colecção Público / Museu de Serralves
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